segunda-feira, 3 de novembro de 2014

FÁBULA DA CINDERELA PETISTA DESLUMBRADA

por RENATO TERRA
by Piauí nº 90



A PETISTA DESLUMBRADA
 
Era uma vez uma esquerdista idiotizada que vivia encostada na casa da madrasta à espera de um Bolsa Esmola qualquer. Cinderela ficou órfã aos 6 meses quando seus pais foram combater na Guerrilha do Araguaia. Foi adotada por uma madrasta que cuidou com mão de ferro de sua educação e formação de caráter. Cinderela, no entanto, tinha um DNA comunista. Passava os dias fumando maconha e imaginando maneiras de implementar no país uma ditadura genocida em nome de “um mundo melhor”. Pelo desleixo com que realizava suas tarefas domésticas, ficou conhecida como a Princesa da Baderna.
Metade irresponsável, metade hipócrita, a princesinha, como toda comunista, no fundo sonhava em casar com um marido rico e morar numa cobertura à beira-mar no Leblon. Resistia diariamente ao trabalho honesto e ofendia a religiosidade de sua sagrada família repetindo blasfêmias vomitadas por Gregorio Duvivier.
Todos sabiam que Cinderela era a cabeça de uma gangue que recrutava bárbaros desocupados para realizar rolezinhos nas áreas civilizadas da corte. Em vez de levar um corretivo bem aplicado, a musa da baderna foi incentivada a delinquir e logo se destacou. Integrou comissões de direitos humanos para defender os bandidos que a acompanhavam e, claro, filiou-se ao PT para conhecer bandidos novos.
Num belo dia, enquanto tramava a depredação de um asilo, Cinderela recebeu uma mensagem em seu iPhone 4 convidando-a para um baile na USP regado a cerveja e tóxicos. Sua madrasta, que pagava suas contas, inclusive o cartão American Express, foi contra. Numa atitude corajosa e educativa, amarrou Cinderela a um poste e saiu para trabalhar.
Foi quando, num passe de mágica, a Fada Neoliberal apareceu. Com um vestidinho Versace, óculos escuros Dolce & Gabbana e chapéu-panamá, a fadinha foi logo lançando seu feitiço: “Livre mercado, Estado mínimo, garantias individuais/ Bibidi-bobidi-bu/ Junte isso tudo e teremos então/ Bibidi-bobidi-bu.”
Com uma varinha Louis Vuitton, transformou a abóbora em um helicóptero da família Perrela. Reduziu impostos de perfumes e disponibilizou para Cinderela um grande closet com coleções hippies e hipsters 2014-15 de grifes famosas. Mas havia uma condição: à meia-noite, o feitiço acabaria e Cinderela teria que arrumar um emprego para pagar suas contas e reembolsar as dívidas que fez com a fada. Os juros seriam de 13% ao mês. Cínica, Cinderela aceitou as condições.
No baile, Cinderela dançou a noite toda de rosto colado com um morador de rua fedido. Perto da meia-noite, no entanto, a manifestação que começou pacífica foi infiltrada por um pequeno grupo mascarado que iniciou atos de vandalismo. A princesa acabou deixando cair um frasco de vinagre e uma máscara de oxigênio na escadaria enquanto corria da Polícia Militar.
Edevaldo Maria das Dores, o morador de rua que dançou com Cinderela, começou a procurar mulheres em cujo rosto coubesse a máscara. Calhorda e ingrata, como todos os comunistas, Cinderela ignorou a busca do malcheiroso e os dois nunca mais se viram.
Cinderela casou-se com um empresário neoliberal financiado pelo BNDES e viveu hipócrita para sempre, assistindo a Manhattan Connection sob o edredom nas noites de domingo.

CABEÇA DE PIMENTA

Vai arder assim nos Estados Unidos
por Alexandre Rodrigues
Piauí nº 95 Ago 2014

Na Guerra Fria, americanos e soviéticos travaram uma disputa pela bomba capaz de destruir o mundo mais rapidamente. Ed Currie, um ex-bancário e agricultor amador americano de 50 anos, fala macia, barba rala e um indefectível boné na cabeça, lidera uma versão menos letal – mas muito quente – da corrida armamentista. O Guinness Book, o livro dos recordes, apontou no ano passado que a Carolina Reaper, pimenta desenvolvida por ele no quintal de casa em Rochester Hills, no estado de Michigan, é a mais ardida do mundo. Atingiu 1,569 milhão de unidades Scoville, a escala oficial de ardência dos frutos das plantas do gênero Capsicum.

Com formato de um rabo de escorpião, a Carolina Reaper é praticamente impossível de ser engolida por alguém com um paladar comum. Na ZestFest – uma feira de pimentas em Columbus, Ohio, à qual Currie compareceu em junho de 2013 com alguns exemplares –, dezenove pessoas tentaram. Dezessete vomitaram ou desistiram. “Não há vergonha em vomitar, amigo”, ele consolava as vítimas. O mundo dos chilli head sou “cabeças de pimenta”, como são chamados os fãs de pimentas extremas nos Estados Unidos, não é mesmo para qualquer um.

O Guinness já reconheceu a existência de quatro superpimentas. Até sete anos atrás, a americana Red Savina Habanero, com cerca de 500 mil unidades Scoville, reinava absoluta. Foi então que, em 2007, Paul Bosland, diretor do Chile Pepper Institute, um centro de pesquisas da Universidade Estadual do Novo México, leu sobre as experiências do Exército da Índia com uma pimenta local, a Bhut Jolokia. Testou algumas amostras e ficou chocado: tinham o dobro da ardência da Red Savina. A Bhut reinou como a mais ardida do mundo entre 2007 e 2010 e criou um fenômeno pop. Vídeos com pessoas sofrendo para comê-la proliferaram no YouTube.

Em fevereiro de 2011, a Bhut Jolokia foi destronada pela inglesa Infinity Chilli, também com mais de 1 milhão de unidades Scoville. Mas seu reinado foi efêmero: duas semanas depois, foi anunciado que outra inglesa, a Naga Viper, era a nova campeã, com 1,382 milhão. Mais quatro meses e o título mudava de mãos novamente, indo para a Butch T, desenvolvida na Austrália, tendo atingido a marca de 1,463 milhão de unidades. Com a venda de sementes pela internet, mais e mais agricultores amadores se aventuraram no ramo.

Ed Currie é um deles. Seu interesse por pimentas se deve ao histórico familiar de doenças cardíacas e câncer. Nos anos 80, ele decidiu pesquisar por conta própria como evitar a maldição, descobrindo que, entre outros fatores, populações com baixas taxas de incidência das duas moléstias consomem pimentas fortes em todas as refeições. Então encomendou sementes pelo correio e começou a cultivá-las no quintal de casa, tentando criar uma híbrida da Naga com a Habanero vermelha.

Nos anos 90, Currie foi levado ao fundo do poço por outros males. Era alcoólatra, pesava mais de 100 quilos e ia mal no trabalho. Foi quando, ele garante, um anjo entrou pela porta numa noite e ordenou que entrasse numa reabilitação. Recuperado, dedicou-se ainda mais às pimentas. O negócio se expandiu com a criação da PuckerButt Pepper Company, uma fabricante de molhos com nomes sugestivos como “Eu te desafio!” que emprega doze pessoas. “Eu tenho minha opinião sobre por que pimentas superquentes são tão populares”, disse ele em entrevista por e-mail: “Vício.”
Currie pode estar certo. Por trás da ardência está a capsaicina, composto químico das pimentas Capsicum. Quando entra em contato com membranas da boca, do nariz e da garganta – é melhor nem pensar nos olhos –, provoca um sinal de dor que faz o cérebro começar a produzir endorfina, que causa uma sensação agradável no corpo. O bem-estar depois da ingestão de uma superforte é parecido com o de um atleta após uma corrida intensa.

Medir essa ardência só é possível graças ao farmacêutico americano Wilbur Scoville. Em 1912, ele começou a misturar um copo de pimenta pura com água com açúcar, diluindo progressivamente até notar – não sem algum sofrimento, já que tinha que experimentar a mistura – que a ardência havia parado. Apesar de rudimentar, o método é a base das unidades de calor Scoville, até hoje usado por cientistas. Mas ninguém precisa mais beber água com pimenta. Análises de DNA e cromatografia detectam o teor de ardência.
“Pimenta é como sal”, diz Paul Bosland, o cientista que também é um chilli head. “Em poucas quantidades, melhoram os pratos; se muito fortes, estragam.”

Por que então produzir uma pimenta quase impossível de comer? A resposta não é muito diferente da que move os produtores de cerveja artesanal ou de café gourmet: a busca de fama e fortuna. Enquanto ingleses e australianos são menos competitivos, compartilhando técnicas e sementes, entre americanos a disputa pela pimenta mais ardida acontece em clima de guerra. Jim Duffy, criador da pimenta Trinidad Moruga Scorpion, travou uma batalha contra Currie em fóruns online e páginas no Facebook quando ficou sabendo da Carolina Reaper. Nada fatal: os dois hoje são amigos.

Currie é um estranho no meio dos chilli heads. Um adorador de pimentas típico parece um fã de rock que gosta de tatuagens e faz referências a Satã, mas ele é um cristão fervoroso desde o “episódio do anjo” e costuma repetir: “Foi um presente de Deus.” Sua generosidade, porém, para nos negócios. Quando um produtor anunciou ter conseguido sementes da Carolina Reaper, os advogados de Currie o procuraram para proibi-lo de revendê-las. Ele também se recusa a entregar amostras a sites de resenhas de pimentas e à imprensa.

Há acusações de que a Carolina Reaper é uma farsa ou, na média, menos picante do que a Trinidad Moruga, que em um teste chegou a atingir 2,2 milhões de unidades Scoville. Para obter seu título, Currie gastou 19 mil dólares em testes de laboratório na Universidade Winthrop. Em novembro de 2013, recebeu a mensagem de parabéns do Guinness anunciando que chegara ao topo – pelo menos até a próxima superpimenta.

O PROCESSO

Francenildo e a Justiça
por João Moreira Salles
Piauí nº 96 Set 2014

Francenildo dos Santos Costa entrou no prédio do Tribunal Regional Federal, em Brasília, por volta das 13h20 do dia 23 de julho, quarta-feira. Estava ali para assistir ao julgamento dos recursos interpostos pela Caixa Econômica Federal e por ele próprio, por intermédio de seu advogado, Wlicio Chaveiro Nascimento, na ação indenizatória que move contra a instituição bancária e a Editora Globo. Lá se iam oito anos desde que seu sigilo bancário fora violado. A caminho da sala da 5ª Turma, percorreu um corredor cujas paredes expunham reproduções baratas de iconografia sacra: madonas cusquenhas, Santas Ceias, esse tipo de coisa. Como estivesse adiantado – a sessão estava marcada para as 14 horas –, diminuiu o passo para ver as imagens. “Esse prédio é mesmo diferente dos outros”, disse, quase de si para si. “Os santos estão na parede.”

As visitas aos outros prédios – o Congresso, a Polícia Federal, o STF – haviam sido muitas. Levado a depor na CPI que investigava as relações do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, com tipos ligados à exploração de bingos, Francenildo disse o que sabia e a vida se desfez. Perdeu o emprego e o anonimato; foi chamado de delator por uns e de aproveitador por outros. Às tantas, chegou mesmo a se perguntar se havia feito alguma coisa errada.

A Caixa dá a entender que fez, sim. Condenada em 2010 a pagar 500 mil reais a título de dano moral – a ação movida contra a Editora Globo foi julgada improcedente em primeira instância, sob o argumento de que a publicação dos dados bancários de Francenildo na revista Época estava respaldada pelo direito à informação –, a instituição recorreu, amparando-se numa peça jurídica de 37 páginas em que lança suspeita sobre a retidão do litigante: “O Autor, diferentemente do alegado na peça inicial, [...] ao invés de ser humilhado, jamais demonstrou alguma espécie de sofrimento. Ao contrário, tendo-se tornado pessoa conhecida nacionalmente, aproveitou-se daquele ‘momento de fama’, apresentando-se sempre nos diversos meios de comunicação com aparência sorridente, falante e, aparentemente, satisfeito com seu ‘sucesso’.

Seria possível avaliar o sucesso de Francenildo pela quantidade de piscinas que, desde 2006, ele consegue lavar a cada semana. Quando a fase é boa, faz bico em três casas e apura 1 200 reais por mês. A fama, da qual não consegue se livrar, é responsável por nunca mais ter conseguido emprego com carteira assinada. (Numa cidade alimentada pela indústria do poder, o rapaz que “derrubou o homem” não se qualifica a muitas vagas.) “O Autor contribuiu para todo este cenário a partir do momento em que concedeu entrevistas ou mesmo autorizou o seu advogado a falar por ele.[...] Ninguém é obrigado a dar entrevista à imprensa”, lê-se no recurso da CEF, argumento curioso que ganharia em força se os advogados explicassem como uma pessoa lançada à revelia no centro do maior escândalo da República – alguém sem um pelotão de assessores para ocupar a linha de frente e sem condomínio fechado onde se refugiar – poderia se dar ao luxo de evitar o assédio da imprensa.
A “aparência sorridente” também não é tão fácil de localizar. Quieto, silencioso, Francenildo dá a impressão de querer sumir dentro de si mesmo. Na manhã daquela quarta-feira, no escritório de seu advogado, mencionara a felicidade ao dizer o que gostaria de ouvir da Caixa à tarde: “Que eles concordam em pagar um pedaço qualquer da indenização para dar cabo dessa história. Eu ia embora feliz. E também seria bom ouvir desculpas, aliviaria um pouco.” Mirando o chão, passou o dorso da mão nos olhos: “Estou cansado.” A voz era um fiapo.
Quanto ao sofrimento de Francenildo – ou à ausência dele, segundo a Caixa –, a peça jurídica da entidade cita o “brilhante voto” do desembargador Sergio Cavalieri Filho em processo semelhante: “‘Só deve ser reputado dano moral a dor, vexame, sofrimento ou humilhação que, fugindo à normalidade, interfira diretamente no comportamento psicológico do indivíduo, causando-lhe aflições, angústia e desequilíbrio em seu bem-estar. Mero dissabor, aborrecimento, mágoa, irritação ou sensibilidade exacerbada estão fora da órbita do dano moral[...].’”

Francenildo leu a peça e concluiu que a linguagem forense se resume a “uma palavra fácil em volta de muita coisa”. Ilustrou a ideia com um gesto largo acima da cabeça, como se ali pairasse uma nuvem na qual se acumulassem “nexos de causalidade”, “domínios do fato”, “princípios de eventualidade”, “polos passivos da presente demanda”, “instâncias ad quem”, “litisconsortes” e “tempestividades”. Desse cipoal – “dessa tecnologia lá deles, disso tudo que estudaram” –, inferiu que, para os advogados da Caixa, seu suposto sofrimento era decorrência do testemunho que prestara à CPI e, nesse aspecto, concordou com eles: “Não sofri por ir na CPI. Preferia 50 mil vezes falar lá no Congresso o que eu falei em vez de eles quebrarem o meu sigilo. ‘Você recebeu aqueles 25 mil pra falar.’ Passei por mentiroso. Isso é que me derrotou, isso é que foi sofrimento.”

Mas não foi bem a isso que se referiu a CEF. A apelação da entidade alude ao sofrimento – ou mero “aborrecimento”, mera “irritação”, como entende o banco – que Francenildo teria experimentado ao se romperem em definitivo os laços com seu pai biológico. Eles ensaiavam uma aproximação quando Francenildo teve de explicar os 25 mil reais em sua conta corrente. Tratava-se de soma adiantada pelo pai (de um total de 30 mil) até que viesse o registro de paternidade. Diante da acusação de que recebera dinheiro para denunciar Palocci, Francenildo se viu forçado a quebrar o acordo que fizera com o pai: o de manter silêncio até que o velho explicasse à família a existência do filho nascido de uma relação extraconjugal. O pai nunca mais falou com ele.

A Caixa nega ter quebrado o sigilo bancário de seu correntista. Argumentando que houve tão somente “transferência de sigilo” ao Ministério da Fazenda, órgão a que está subordinada, joga Palocci aos leões: “O sr. Antonio Palocci Filho é a pessoa que tinha o domínio do fato, mentor intelectual e arquiteto do plano.” Em 2009, por cinco votos a quatro, o STF absolveu o ex-ministro da ação criminal movida pelo Ministério Público por falta de provas de seu envolvimento na violação.

Em junho do ano passado, tentando um novo contato com o pai, o primeiro desde os acontecimentos de 2006, Francenildo foi a Teresina e o esperou na porta de casa. Saiu corrido dali, sob ameaça de polícia. “Me deu vontade de chorar e daí liguei pro Wlicio. Pai chamando polícia pro filho é coisa muito ruim. Entende agora? Eu ainda tinha uma chance com ele. Foi a quebra do sigilo que me lascou.” Uma ação de paternidade seria possível, mas custa caro e encerraria de vez qualquer possibilidade de aproximação. “Queria que o pai me aceitasse”, diz Francenildo.
Já para a Caixa, o acordo entre pai e filho não passou de uma transação comercial, sujeita, como todo negócio, às penalidades cabíveis em caso de quebra de contrato. Em apoio à tese, a Caixa propõe “o seguinte silogismo: se somente por uma contraproposta de 30 mil reais o Autor se comprometeu a silenciar quanto ao seu Estado de Filiação[...], pode-se concluir que acaso recebesse proposta de qualquer valor inferior àquele, não se contentaria em revelar os fatos, com o que a alegada filiação estaria divulgada”. Mais uma pirueta retórica e o silogismo se torna fato líquido e certo: “Assim, se por R$ 29.999,99, ou menos, o próprio Autor deixa antever que tornaria pública sua filiação, não se mostra sequer razoável pretender indenização[...] da ordem de R$ 17.500.000,00[demanda inicial da ação] e receber o montante de R$ 500.000,00 fixados na sentença.
Os advogados da Caixa advertem que, se não compreendermos a natureza comercial do acerto entre pai e filho – não obstante Francenildo jamais ter cogitado abrir mão do reconhecimento paterno –, “acabaremos por banalizar o dano moral, ensejando ações judiciais em busca de indenizações pelos mais triviais aborrecimentos”, outra passagem pinçada do brilhante voto do desembargador Cavalieri Filho.

Às 13h30, Francenildo, tímido como sempre, sentou-se na última fileira da sala da 5ª Turma. Um advogado da CEF já estava presente, e não demorou para que outros quatro se juntassem a ele. Quando o meirinho começou a tomar nota dos pedidos de preferência (quem fala primeiro, quem fala depois), um deles se aproximou, deu seu nome e informou a parte que representava: “Caixa Econômica Federal.” Francenildo cochichou: “Caixa econômica devia ser eu, que tenho um advogado só. Eles têm cinco.” Errado: com os dois que chegariam dali a pouco, seriam sete, quatro mulheres e três homens, todos com o crachá de seu empregador. Ocuparam mais da metade da fila à frente de Francenildo e logo iniciaram o vaivém de celulares, numa animada exibição de fotografias de férias, pratos elaborados e ao menos um pôr do sol. A um joelho de distância, Francenildo comentou com Wlicio: “Parece o 7 x 1 de Brasil e Alemanha.”

A sala foi se enchendo e não havia dúvida de que a cena se passava em Brasília, pois quase todos os presentes, em sinal da própria importância, ostentavam na lapela aqueles bottons com cara de comenda. Os juízes, desembargadores e técnicos foram tomando seus lugares, num respeito suíço ao horário. Eram 13h54. Às 13h55, o meirinho se aproximou da balaustrada que separa corte e plateia e anunciou em voz alta: “Francenildo, Caixa: retirado de pauta. Não será julgado hoje.”
Os advogados da Caixa se entreolharam. Dois deles se levantaram, em seguida mais três, e todos saíram da sala para confabular com Wlicio. Francenildo permaneceu onde estava, enquanto sua vida era discutida nos corredores do TRF. Esperava essa sessão desde 2010.
Havia ocorrido um erro processual. A Editora Globo, corré na apelação de segunda instância, não comparecera à sessão por não ter sido intimada, motivo pelo qual o juiz adiava o julgamento. Até o fechamento desta edição, uma nova sessão ainda não havia sido marcada.

Francenildo percorreu em sentido inverso o corredor dos santos. “É por isso que rico tem medo de ficar pobre. Da próxima vez, é a Caixa que não vem. Quantos anos agora até eles remarcarem?” Parou do lado de fora do TRF, à espera da condução. À sua frente, os sete advogados da Caixa cruzaram a rua em direção à sede do banco, ali perto. Ao contrário deles, Francenildo já perdera o dia – os 130 reais para lavar as pedras de uma piscina. Ia para casa, a uma hora de distância.

domingo, 2 de novembro de 2014

O ÓDIO NOSSO DE CADA DIA

Leandro Karnal - O Estado de S. Paulo
historiador e professor de História Cultural da Unicamp

Finda a eleição, numa ressaca nacional o Brasil descobriu-se raivoso: dormimos num vale suíço e acordamos em Serra Leoa




O Brasil não tem terremotos ou furacões. Carecemos de tsunamis. O fundamentalismo religioso, aqui, é mais lembrado pela estética da saia e cabelos compridos que por genocídios. Mesmo não sendo um paraíso, todo brasileiro sabe que não vivemos no inferno. A Terra de Santa Cruz é um cálido purgatório, no máximo.

Esse quadro tem sido pintado, com cores mais fortes ou mais fracas, desde nossa cena fundacional, em 1500. Sérgio Buarque de Holanda usou a celebrada expressão “homem cordial” para descrever nossas raízes, em 1936. Ainda que tenha defendido que o cordial deriva de impulsivo pelo coração, não o dócil, o texto do pai do Chico foi lido sob o prisma do pacifismo. Na mesma década, Gilberto Freyre tinha pintado um latifúndio no qual a escravidão emergia com uma toada malemolente. Os dois clássicos foram absorvidos por um público pátrio que amou encontrar, mesmo onde não havia, uma base narrativa para nossa representação pacifista.

Contraponto necessário a nossa ilusão: nossos vizinhos são agressivos. Guerras civis devastaram Argentina e Colômbia. A escravidão custou mais de 600 mil mortos para ser abolida nos EUA. Aqui? Uma penada de ouro de uma princesa gentil num belo domingo de maio de 1888.

A expressão guerra civil não aparecia nunca nos livros didáticos do Brasil. Cabanagem, Balaiada, Farroupilha? Eram revoltas regenciais, termo didático, não sangrento e asséptico. A violência? Uma exceção. Euclides da Cunha destacou que a repressão a Canudos era algo único: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo”. Lá nos sertões ainda sobrevivia uma possibilidade de violência sem concordata, mas era excepcional. Caso ímpar num país de “acordões” e de gabinetes de conciliação, atavismo do século 17 que insistia em não morrer.

Nosso racismo? Completamente aguado em comparação ao apartheid sul-africano ou estadunidense, dizia-se. Aqui jamais houve negros separados de brancos em ônibus. Antagonismos homicidas entre islâmicos e judeus no Oriente Médio? Abaixo do Equador os dois filhos de Abraão dividiam calçadas de lojas e se cumprimentavam varrendo a frente de seus estabelecimentos. O campo de prisioneiros de guerra alemães no Brasil, em Pouso Alegre (MG), em 1943/1944, era quase uma colônia de férias se comparado aos similares europeus. Que país bucólico e pacífico! Que terra bafejada pela harmonia!
Esse quadro sem desastres naturais de monta nem ódios ancestrais e genocidas foi passado a várias gerações, a minha inclusive. Em plena ditadura, na escola, cantávamos “as praias do Brasil ensolaradas” onde Deus plantara mais amor e onde “mulatas brotam cheias de calor”. Nesse Éden tropical e erótico, nada se falava sobre repressão a dissidentes. E, combinação maravilhosa: o céu nos sorria e a terra jamais tremia.

Os momentos de polarização política, como 1935 (Intentona Comunista) ou 1964 (golpe militar), foram retratados na versão oficial e conservadora como infiltração de doutrinas estrangeiras de ódio. Era o marxismo pantanoso em meio a um povo cristão e pacífico. Foram os primeiros momentos nos quais a elite pátria pensou em “nós”, ou seja, os pacifistas que queriam construir uma país de progresso e prosperidade, contra “eles”, os grevistas, sindicalistas, agitadores e outros que insistiam em inocular no corpo nacional o vírus do dissenso. “Nós” correspondia aos patriotas, aos que só desejavam a paz. “Eles” correspondia à cizânia e aos cronicamente insatisfeitos. Sempre fomos bons em pensamentos maniqueístas, em dualismos morais perfeitos. Ninguém é católico por séculos e emerge ileso desse destino...

A grande política foi criada nessa duplicidade: os getulistas e lacerdistas, Arena e MDB, PT e PSDB. Briga de torcidas sim, porque cada lado sempre retirou sua agenda da outra facção. Mais do que briga, dança coreografada. “Nós” somos éticos, “eles” são corruptos. “Nós” trabalhamos por um Brasil grande e disciplinado, empreendedor. “Eles” querem só as benesses do governo numa vida ociosa e vampiresca. “Nós” sustentamos o Brasil. “Eles” apenas se aproveitam. Qual o grande problema nacional? “Eles” não entendem que “nós” estejamos corretos.

A microfísica do poder e da sociabilidade repetia esse padrão. No trânsito, o que atrapalha? Se eu for motociclista, óbvio, carros, ônibus e pedestres não funcionam. Sou taxista: esses carros particulares estão a passeio e são descuidados. Ciclista estou? Falta cidadania aos outros. Infelizmente, todos erram e, desgraçadamente, apenas eu sei dirigir.
O primeiro problema da nossa intensa violência no trânsito(estamos entre os quatro países que mais matam pessoas) é que não participo, como sujeito histórico, da barbárie. A violência é do outro, nunca minha. Aliás, rodo como um Gandhi orientado pela Madre Teresa de Calcutá. Os outros? Gêngis Khan no banco de passageiros com Átila ao volante.
O trânsito é uma metáfora trágica. Somos um país violento. Violentos ao dirigir, violentos nas ruas, violentos nos comentários e fofocas, violentos ao torcer por nosso time, violentos ao votar.

Passei duas semanas fora do País às vésperas do segundo turno presidencial. Desembarquei no sábado, faltando poucas horas para a abertura do horário de votação. Distante do meu país, fui invadido, via internet, por textos duros, propagandas furibundas, imagens de escárnio e análises corrosivas. Todas tinham um ponto em comum: o outro era a fonte do deslize ético e do método ilícito de campanha. A campanha do outro partido era D-E-P-L-O-R-Á-V-E-L. “Nós” apenas nos defendíamos no interior do castelo puro da civilização, jogando contra-ataques em direção à horda nauseante.

Findo o pleito, uma ressaca nacional: o Brasil descobriu-se raivoso. Os brasileiros ficaram surpresos com a carga de ódio que fluiu pela rede. Estávamos ainda nas praias do Brasil ensolaradas? Na terra do leite e do mel sem terremotos? Este ainda seria o país do futuro? Dormimos num vale suíço e acordamos numa guerra em Serra Leoa.

Esse ódio sempre esteve lá. Ódio não é dado a ter infância. Nasce adulto em lugares úmidos onde o ressentimento germina. O ódio é parte central da identidade de indivíduos e grupos. Os regionalismos raivosos (calabreses contra lombardos, bascos contra castelhanos, etc.) sempre foram, antes de raivosos, regionalismos. Em outra palavras: eu preciso constituir uma região antes de odiar outra. Mas ódios são circulares com a identidade: eu preciso odiar também ANTES para constituir uma região. Uma contradição interessante.
Aqui começa a delícia do ódio. Ao vociferar contra outros, o ódio também me insere numa zona calma. Se berro que uma pessoa x é vagabunda porque nasceu na terra y, por oposição estou me elogiando, pois não nasci naquela terra nem sou vagabundo. Se ironizo com piadas ácidas uma opção sexual, destaco no discurso oculto que a minha é superior. Todo ódio é um autoelogio. Todo ódio me traz para uma zona muito tranquila de conforto. Não tenho certeza se sou muito bom, mas sei que o outro partido é muito ruim, logo, ao menos, sou melhor do que eles. É um jogo moral denunciado por dois grandes judeus: Jesus e Freud.

Mas o ódio apresenta outra função interessante. Ela aplaina as diferenças do meu grupo. O ódio, como vários ditadores bem notaram, serve como ponto de união e de controle. O ódio é gêmeo xifópago do medo, e pessoas com medo cedem fácil sua liberdade de pensamento e ação.
Há que se lembrar: a brisa do amor fraterno é mais etérea do que o furor da tempestade de ódio. Insultar no trânsito é mais intenso do que dizer eu te amo na cama, ao menos considerando-se a abundância da primeira frase e a escassez da segunda.
O ódio é uma interrupção do pensamento e uma irracionalidade paralisadora. Como pensar é árduo, odiar é fácil. Se a religião é o ópio do povo para Marx, o ódio é o ópio da mente. Ele intoxica e impede todo e qualquer outro incômodo.

Por fim, o ódio tem um traço do nosso narciso infantil. O mundo deve concordar conosco. Quando não concorda, está errado. Somos catequistas porque somos infantis. A democracia é boa sempre que consagra meu candidato e minha visão do mundo. A democracia é ruim, deformada ou manipulada quando diz o contrário. Todo instituto de pesquisa é comprado quando revela algo diferente do meu desejo. Não se trata de pensar a realidade, mas adaptá-la ao meu eu. As crianças contemporâneas (especialmente as que têm mais de 50 anos como eu) batem o pé, fazem beicinho, mandam mensagem no WhatsApp e argumentam. Mas, como toda criança, não ouvimos ninguém. Ou melhor, ouvimos, desde que o outro concorde comigo; então ele é sábio e equilibrado. Selecionamos os fatos que desejamos não pelo nosso espírito crítico, mas por uma decisão prévia e apriorística que tomamos internamente. Grosso modo, isso foi explicado em Uma Teoria da Dissonância Cognitiva, de Leon Festinger.

Seria bom perceber que o ódio fala muito de mim e pouco do objeto que odeio. Mas o principal tema do ódio é meu medo da semelhança. Talvez por isso os ódios intestinos sejam mais virulentos do que os externos. Odeio não porque sinta a total diferença do objeto do meu desprezo, mas porque temo ser idêntico. Posso perdoar muita coisa, menos o espelho.
Mas o ódio é feio, um quasímodo moral. A ira continua sendo um pecado capital. Assim, ele deve vir disfarçado da defesa da ética, do amor ao Brasil, da análise econômica moderna. Esses são os apolos que banham de luz a fealdade. E, como queria o rebelde  (que odiava o Estado), sempre teremos 999 professores de virtude para cada pessoa virtuosa. Em oposição, encerro acrescentando: sempre teremos 999 pessoas odiando para cada pessoa que pensa. Isso às vezes me dá um ódio...


 

AGUA DE BEBER

Marcelo Rubens Paiva
30 outubro 2014 | 12:15



A água da piscina do condomínio começou a baixar um azulejo por semana. A moradora do bloco B, zelosa pela condição física, a única que nadava todas as noites, foi a primeira notar. Avisou o porteiro, que avisou o chefe do turno, que reportou ao zelador. Vazamento?
O síndico, sedentário que não zelava pela condição física, demorou para chamar o técnico terceirizado. Que disse, numa inspeção cuidadosa, que o fenômeno ocorria na vizinhança. Fenômeno? Sugeriu checarem as imagens gravadas pelas câmeras espalhadas.
Na administração do prédio, num monitor sem cor nem definição, técnico terceirizado, zelador e síndico sedentário viram a moradora do bloco B entrar na piscina e nadar. Elogiaram a disposição e o bom condicionamento. Adiantaram as imagens. Viram que, no meio da madrugada, pessoas encapuzadas apareciam correndo e, com baldes, retiravam às pressas água da piscina. Adultos e crianças. Subtraíam água do bem coletivo de uso compartilhado pela massa condominial. Quem?
Pelo mesmo monitor, viu-se que naquele horário ninguém atravessou o esquema de monitoramento do perímetro condominial (portaria gaiola, ou clausura, com sistema de “intertravamento”, portaria blindada, cercas eletrificadas, grades duplas, alarmes e sensores a laser). Não tinha outra: moradores dos blocos A, B e C, independentemente do condicionamento físico, surrupiavam noite após noite água da piscina.
Numa reunião marcada com urgência na Associação de Síndicos de Condomínios Comerciais e Residenciais, descobriu-se que o fenômeno era epidêmico. Condôminos roubavam água das piscinas dos próprios condomínios. E residências com piscinas eram invadidas por ladrões de água. Sugestão: redobrar a vigilância, cobrir piscinas com lonas e grades, até a crise abastecimento do Estado passar.
O boato se espalhou. Esgotou-se o estoque de baldes e afins. A notícia de que a água estava com os dias contados foi a mais comentada em redes sociais por dias. Clubes e academias de natação foram invadidos por gangues organizadas que, com SUVs adaptados com caixas d’água de polietileno e fibra de vidro nas carrocerias, com capacidade de armazenarem até 5 mil litros, chegavam armados de bastões, agrediam fisioterapeutas, professores, pacientes e clientes com ou sem tendinites e dores nos meniscos, e sugavam a água dos reservatórios que encontrassem. Clorada e salinizada.
Pessoas estocavam água potável ou não em casa, no quintal, na varanda, no armário, no cofre. A Força de Segurança Federal foi chamada para cercar o sistema público de tratamento de água e esgoto, que podia ser tomado pelo novo movimento sem-água, braço radical do sem-terra e sem-teto, que acampou nos portões da companhia mista de capital aberto de saneamento básico do Estado.
Postos de gasolina viram o estoque de água mineral de suas lojas de conveniência se esgotar. Passaram a vender a água estocada de seus lava-rápidos. O negócio era uma mina de ouro. A clientela não parava. Esvaziaram os tanques de gasolina e passaram a vender água pelas bombas de gasolina aditivada, comum e etanol. O preço, lógico, foi reajustado.
Filas de clientes com galões se formaram. Caminhões tanques, que antes transportavam gasolina, diesel e álcool, traziam água de rios distantes. Como sempre, as agências reguladoras, criadas para fiscalizar a prestação de serviços públicos praticados pela iniciativa privada, como  a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis e a Agência Nacional de Águas, vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, que coordena a gestão dos recursos hídricos no país e regula o acesso à água, foram as últimas a se darem conta da crise.
Uma comissão mista, acoplada a uma força tarefa, foi criada tarde demais, quando já não se vendia mais combustível na maioria dos postos da cidade, e a população obstinada agia anarquicamente e se organizava em milícias em busca de água.
De bairro em bairro, as torneiras secaram. Famílias armadas paravam carros no farol e anunciavam o assalto. Enquanto as vítimas se preparavam para entregar bolsas, correntes, relógios e celulares, num gesto rápido e aparentemente bem treinado, o líder da gangue abria o capô por dentro, mantendo as vítimas sob a mira de um revólver, enquanto, numa operação bem orquestrada, sua família retirava água dos reservatórios do carro assaltado, incluindo a do radiador.
O Estado de Emergência mudou para o Estado de Calamidade Pública do dia para a noite. Aviões não mais posavam nem decolavam, já que não havia combustível nem água nos aeroportos. As linhas telefônicas ficaram congestionadas, com pessoas em busca do que beber. A internet caiu: a expressão “água potável” foi a mais digitada em sites de busca, superando “Justin Bieber”, “dieta de Hollywood” e “como adquirir barriga tanquinho”.
Carros como o Fusca, com motor refrigerado a ar, foram valorizados. Mas a enorme quantidade de veículos sem combustível e com motor fundido (sem água no radiador) parada no meio do caminho congestionou ruas, alamedas, avenidas, túneis, artérias rodoviárias das cidades e estradas. O trânsito travou de vez.
Carroceiros trocaram seus instrumentos de trabalho por apartamentos. Uma bicicleta passou a valer mais do que um SUV. Um pangaré passou a valer mais que uma Ferrari 550 Maranello V-12 com 485 cavalos de potência.
A moradora do Bloco B, sem condição física, já que estava há dias sem nadar, decidiu não encarar a jornada a que a população se propôs: rumar para o norte em comboios.
Viu da sua janela a procissão de farrapos humanos imundos e sedentos abandonando a cidade em busca de água. Carroças, bicicletas, carrinhos de supermercado, skates, tudo que tivesse rodas servia para a grande migração. Viu o porteiro e o chefe do turno ajudarem a empurrar o carrinho de lixo com pertences do síndico e do zelador, que partiam com a grande massa que, ao longe, lembrava migração de gnus na África.
Poucos ficaram, esperando que autoridades competentes e incompetentes conseguissem resolver o problema.
Até acabar a luz.

20 ANOS DE MANGUEBEAT


Corpo de Lama

Chico Science

Este corpo de lama que tu vê
É apenas a imagem que sou
Este corpo de lama que tu vê
É apenas a imagem que é tu
Que o sol não segue os pensamentos
Mas a chuva muda os sentimentos
Se o asfalto é meu amigo eu caminho
Como aquele grupo de caranguejos
Ouvindo a música dos trovões
Esta chuva de longe que tu vê
É apenas a imagem que sou
Este sol bem de longe que tu vê
É apenas a imagem que é tu
Fiquei apenas pensando que seu rosto
Parece com as minhas idéias fiquei apenas
Lembrando que há muitas garotas sorrindo
Em ruas distantes há muitos meninos
Correndo em mangues distantes
Esta rua de longe que tu vê
É apenas a imagem que sou
Esse mangue de longe q tu vê
É apenas a imagem que é tu ehhh!!
Se o asfalto é meu amigo eu caminho
Como aquele grupo de caranguejos
Ouvindo a música dos trovões
Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente
Sem que sejam forjados para acontecer
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes
Lentamente deixai que as coisas que lhe circundam
Estejam sempre inertes como móveis
Inofensivos para lhe servir quando for
Preciso e nunca lhe causar danos
Sejam eles morais físicos ou psicológicos

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A HIPOCRISIA INTERNACIONAL DIANTE DO EBOLA






GENEBRA - Em 1976, o vírus do Ebola foi identificado por cientistas belgas. Desde então, ele foi amplamente estudado e hoje, basicamente, se conhece tudo sobre a doença. Mas então por qual motivo não existe tratamento e nem vacina?

Eu fiz essa pergunta ao especialista que descobriu a doença, Peter Piot. Sua resposta beirou à hipocrisia. Segundo ele, em 28 anos, “apenas” 1,5 mil pessoas morreram.
O que ele não disse foi que todas essas 1,5 mil vítimas eram africanos miseráveis.

Eu me pergunto: se 1,5 mil franceses, alemães e americanos tivessem morrido de uma doença, será que ela continuaria a ser negligenciada pelas bilionárias empresas de remédios ou pelos investimentos dos governos?

Hoje, a Europa e os EUA estão diante de um desafio: a eventual chegada do vírus a suas casas. Rapidamente, governos estão iniciando mega-operações e colocando todo o tipo de controles em aeroportos.

Mas o que eles realmente temem, se seus hospitais são os mais modernos que a civilização já ergueu? Temem o vírus ou o reconhecimento de que, ao abandonarem populações inteiras por décadas, as condenaram à morte?

Para a OMS, o Ebola é um exemplo de um “doença negligenciada”, mais uma expressão criada pela diplomacia internacional que esconde a realidade de forma magistral.
Vamos ser claros: não existem doenças negligenciadas. O que existem são sociedades negligenciadas.
Um estudo publicado na revista Lancet indicou que, entre 1975 e 1999, 1,3 mil novos remédios foram desenvolvidos no mundo.

Quantos deles foram para as doenças negligenciadas? 16. Claro, quem morre dessas doenças não conta.
As empresas que precisam prestar contas a seus acionistas se defendem: não há como produzir um remédio para um grupo de pessoas que não tem dinheiro não para se alimentar.
Minha pergunta é simples: e quem presta contas à humanidade e à história?
Agora, americanos e europeus correm cinicamente para mandar dinheiro, médicos e equipamentos para Serra Leoa, Libéria e Guinea.

Hoje, obviamente o pânico é em parte o resultado do imaginário coletivo sobre a chegada de uma doença supostamente desconhecida num grande centro urbano.
Mas é, acima de tudo, o pânico de ter de se confrontar com a dura realidade de que a desigualdade social mata. E todos os dias.

by Jamil Chade - Estadão

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A MÃO DIVINA DO HOMEM

A TERRA TEM 52% DE ANIMAIS A MENOS DO QUE EM 1970

Desde 1970, mais da metade da população mundial de animais vertebrados desapareceu, de acordo com com o relatório bianual do World Wildlife Fund.

O "Relatório do Planeta Vivo"estuda as populações de mais de 10 mil espécies de mamíferos, pássaros, répteis, anfíbios e peixes. Segundo o estudo, 52% da população total da fauna selvagem do planeta morreu entre os anos de 1970 e 2010.

"Nós estamos destruindo, pouco a pouco, a capacidade de auto-suficiência de nosso planeta", afirmou Carter Roberts, CEO da WWF, em um comunicado.
De acordo com o relatório de 180 páginas, o declínio é mais agudo nas regiões tropicais e nos países menos desenvolvidos. Na América Latina, por exemplo, o declínio foi de cerca de 83%.

 

Esse gráfico expõe o declínio da população animal desde 1970. Crédito: WWF
"A destruição de habitats e a exploração extrema da caça e da pesca são as principais causas desse declínio", aponta o relatório. "A mudança climática será a próxima vilã; é provável que essas populações sejam ainda mais prejudicadas no futuro.”
Dentre os animais vertebrados, as populações de espécies terrestres e marinhas tiveram uma baixa de 39%. A maior queda, segundo o grupo, ocorreu na população de peixes de água doce e anfíbios; os pesquisadores registraram um declínio de 76% na população total.

 


Para efetuar esse cálculo, o grupo utiliza o "Índice Planeta Vivo", que utiliza dados de 10.380 populações de 3.038 espécies vertebradas.
"Essas populações tem sido estudadas e monitoradas amplamente por cientistas e pelo público há anos, o que implica na disponibilidade de muitos dados sobre o estado de populações específicas e suas respectivas movimentações", afirma o estudo.

É bom lembrar que o WWF é uma organização profundamente engajada na preservação da biodiversidade do planeta, o que significa que esse relatório deve ser lido com alguma cautela. Mas, entre as organizações ambientalistas, ela tem sido uma das mais confiáveis, e suas afirmações não são tão absurdas quanto imaginamos. É de conhecimento geral que a Terra está passando por sua sexta onda de extinção em massa, e existem muitos indícios de que nós somos os responsáveis por esse evento.

Se levarmos em consideração o notório fenômeno que ameaça anfíbios e corais, a mingua da gigante fauna africana, os terríveis vazamentos de petróleo e destruição do Golfo do México, a proliferação de micro-plásticos em nossas águas, e o desmatamento e extração de petróleo que destroem nossas florestas tropicais, nada disso parece muito surpreendente, né?



Tradução: Ananda Pieratti
By Motherboard

                                                                                                                                                  


BOYAN SLAT: O Garoto que quer limpar o Mar.





   

Plástico é o grande resíduo resistente da sociedade de consumo. Uma sacola plástica decompõe-se em cerca de 20 anos; uma garrafa demora por volta de 450. Barato e de aplicação universal, 225 milhões de toneladas do material são produzidas anualmente, a partir de um recurso não tão inesgotável quanto costumava ser: petróleo.

O plástico polui nossos oceanos na forma de partículas flutuantes, por vezes formando até mesmo ilhas. Estima-se que haja 150 milhões de toneladas de plástico nos mares, com 100 mil toneladas somente na mancha de lixo do Pacífico Norte. Isto significa que o plástico é responsável por cerca de 70% de toda a poluição nos oceanos. Se estes números não são o bastante para ilustrar o simples volume do problema, veja só estas pessoas posando em meio ao lixo doméstico semanal que geram.

Foi durante um mergulho na Grécia que Slat, à época com 17 anos, compreendeu a gravidade da situação. Desde então, o adolescente holandês, que acaba de completar 20 anos, dedica sua energia ao desenvolvimento de uma técnica que utilize a força dos redemoinhos para recolher o plástico.

Hoje, ele lidera uma equipe de 100 cientistas, estudantes, e apoiadores. E com o seu recente sucesso no crowdfunding, parece que o trabalho não irá diminuir. Ele explicou que seu próximo passo é construir protótipos melhorados de seus coletores flutuantes de 100 km de comprimento, antes de ancorar o sistema em águas poluídas nos próximos três a cinco anos.

“Não temos folgas, isso faz parte mesmo do projeto de limpeza do oceano”, declarou Slat, que alternava entre diversas ligações e emails durante uma visita a sua oficina em Delft. Ocasionalmente, ele estudava leituras de um aplicativo que monitorava as doações para o seu projeto; na época, ele estava chegando quase aos 2 milhões de dólares no crowdfunding.

“No momento a Alemanha é nosso segundo maior doador”, afirmou durante um momento mais descontraído. “Sem a internet, este projeto não estaria de pé.”

É claro que o Ocean Cleanup Project não é o primeiro conceito de retirada de lixo dos oceanos. Há o projeto One Earth – One Ocean, de Munique, cujo objetivo é recolher o lixo com seu barco customizado, o Seekuh. Existem projetos de rede como o The Clean Oceans Project, que busca educar a população em escala global. E claro, há o adorável Mr. Trash Wheel: uma roda de moinho estilo cartoon que perambula pelo porto de Baltimore.

O que torna o projeto de Slat único é que ele parte da premissa de deixar as correntes marinhas fazerem o trabalho pesado, levando o plástico de forma eficaz pelo meio de uma estrutura com formato em V, onde o lixo será coletado e enviado regularmente à terra em lotes maiores. A barreira ancorada de 100 km, adicionou Slat, seria a maior estrutura já construída nos oceanos.
Os custos serão enormes, mas Slat ainda afirma que o projeto em si custaria 33 vezes menos que demais projetos convencionais em ação atualmente.

 

Nem todos estão convencidos. Stiv Wilson, do projeto 5Gyres, referiu-se ao esforço de Slat como uma falha e nada mais que uma ilusão. Em resposta, o jovem divulgou um longo estudo de viabilidade, em que demonstra, dentre outras coisas, como a vida marinha não será afetada ao passar por baixo da barreira.

Em um recente artigo no Süddeutsche Zeitung, cientistas alemães alertaram que o Ocean Cleanup Project causaria mais males que benefícios. Eles afirmaram que a força das correntes não foram estimadas corretamente, e que o plano de Slat poderia ser afetado pelo crescimento microbiológico na barreira.


De qualquer forma, Slat é grato pelas críticas que a comunidade científica fez de suas ideias; ele planeja continuar trabalhando em cima de futuros estudos de viabilidade e protótipos.
“O que queremos fazer nunca foi feito antes”, admitiu. “É provável que nos deparemos com diversas incertezas.”

No fim das contas, tirar o plástico do alto mar é só uma parte da solução. O objetivo final é encerrar, de uma vez por todas, o fluxo de lixo de nossa sociedade em direção aos oceanos. Sem mencionar a tarefa hercúlea que seria reciclar e reaproveitar todo o plástico assim que estiver em terra firme.
Se o projeto de Slat vai afundar ou não ainda é uma incógnita. Só não diga que ele não iria para o fundo junto com o barco.

Tradução: Thiago “Índio” Silva
By Motherboard

domingo, 12 de outubro de 2014

Bulldozing the Border Between Iraq and Syria: The Islamic State (Part 5)

Christians in the Caliphate: The Islamic State (Part 4)

Enforcing Sharia in Raqqa: The Islamic State (Part 3)

                                                  

"Eu te desafio a encontrar alguem vendendo bebida alcoolica"

A Ambev sumia ou quebrava por aqui.

Grooming Children for Jihad: The Islamic State (Part 2)

                                   



"O filho do Califa lutou contra os Romanos quando tinha 17 anos". Há mil e tantos anos atrás.

Hoje aqui no Brasil tambem temos crianças com armas na mão. E nem foi incentivada por mim.


The Spread of the Caliphate: The Islamic State (Part 1)



                            
 Já escrevia Karl Max..."A religião é o ópio do povo".

E se perceber um ódio de décadas aos Americanos então...